Belo dia, para ir aos cagordos!

 

Nov,02 023.jpg

 

Um cagordo, também chamado machoucho ou como por cá se diz, cogumelo

 

Há muitos anos atrás, quando eu vivia num mundo cercado por montanhas, o meu Universo era, como devem calcular, muito limitado, razão porque aprendi a conhecê-lo o melhor possível desde o seu (meu) nascimento e com ele cresci e com ele meditei e, é dos seus primeiros tempos que eu tenho recordações e saudades. Esse tempo de limitações era também, um tempo de felicidade, o tal palavrão que envolve tudo.

 

Agora, nestes tempos de chuvas outonais, sempre que vou à varanda e vejo chover, faço caminhar o meu olhar pelo horizonte e com ele pregado na relva da vida, imagino-me a caminhar naquele pequeno Universo pelas bouças e pelos prados de feno, bem cheirosos, ao tempo quase intactos à poluição, por entre carvalhos, sob grandes chuvadas, à procura de cagordos, cercado pelas montanhas, para além das quais ficava outro mundo, aquele que eu não conhecia, mas ouvia falar.

 

Nov,17 033.jpg

 

A relva da vida muitas vezes coberta com a morte das folhas debaixo das quais podem nascer os cagordos

 

Quando pequenote olhava para a minha irmã e dizia-lhe: acende o lume no borralho e arranja as cebolas que eu vou aos cagordos! Assim acontecia, por perto ou por longe, eu apanhava os cagordos do meio das ervas e trazia bastantes para fazermos o nosso petisco. Por vezes chegava todo molhado e gelado com as primeiras chuvas frias de Outono, mas ia ter a recompensa.

 

Nov,17 022.jpg

 

Como um druida continuo com saudades dos meus carvalhos

 

Mudava a roupa húmida ou molhada e ia sentar-me numa cortiça no chão do borralho, feito de pedra granítica e ali no quentinho que vinha do braseiro das achas de madeiras de carvalho a ver fazer e depois comer, o nosso grande petisco de cagordos assados ou fritos. A minha irmã lavava-os e partia-os aos bocados para uma frigideira que com cebolas cortadas às rodelas e azeite, iria fritar aquelas beldades que a terra nos oferecia. Quando apanhava grandes larápios, estilo chapéu mexicano, era uma comezaina deles, fritos ou assados na brasa com um pouco de sal acompanhados com pão também assado nas brasas e coberto com a manteiga do leite do nosso gado.

 

Nov,17 030.jpg

 

Nos prados de feno entre faias e vidoeiros revivo as belezas da vida

 

Nesses tempos, atravessava o rio saltando de rocha em rocha, por entre as quais galgava uma água límpida e pura que escorria das minhas montanhas lindas. Hoje, se fizer a minha caminhada nos mesmos trajectos de outrora, mesmo depois das limpezas das grandes chuvadas outonais, encontrarei, entre as rochas do meu rio, tudo aquilo com que a chamada civilização nos brindou. Plásticos de todos os tipos aprisionados em gretas de rochas, ou enrolados em paus que, arrastados pela corrente, por ali ficaram também. Bem como pedaços de ferros, de alumínios, de chapas de zinco, etç. que foram sobras de construções "modernas" permitidas por um laxismo incrível das autoridades com poder para o ter evitado. Sinal dos tempos!

Eu sou um guarda-rios comum (alcedo atthis) e azul, tal como o Ventor gosta. Caminharei por aqui, neste Planeta Azul e, na companhia do Ventor, se nos deixarem

tags:
publicado por Ventor às 12:11