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Planeta Azul

Mantenhamos o Planeta Azul e limpo. Não sejamos egoístas, pensem no futuro dos que vão chegando

Mantenhamos o Planeta Azul e limpo. Não sejamos egoístas, pensem no futuro dos que vão chegando

Planeta Azul

Eu sou um guarda-rios comum (alcedo atthis) e azul, tal como o Ventor gosta. Caminharei por aqui, neste Planeta Azul e, na companhia do Ventor, se nos deixarem


Águia de asa redonda, uma amiga do Ventor


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Planeta Azul - Na Rota do Lince Ibérico

A beleza do Lince Ibérico. Foto tirada da Wikipédia atribuída ao "Programa de Conservación Ex-Situ del Lince Ibérico

06
Dez03

Uma rocha negra de basalto

Ventor

Numa manhã coberta, meio sol, meio sombra, levantei-me, olhei pela janela e vi as ramadas da árvore da rua, frente à janela, a vassourar o vento. O vento passava, esfregava-se e a árvore sacudia-se toda a tentar vassourar o atrevido que, ia atirando contra a parede e contra as vidraças da marquise ao mesmo tempo que, umas réstias de sol penetrante se entretinham a espreitar a refrega entre os dois. Eu olhei e apercebi-me que umas nuvens brancas também partilhavam dessa festa anacrónica, a cinco. Eu, o vento, a árvore, o sol e as nuvens.

 

 

Por entre as árvores e candeeiros, em Vilamoura, a presença do meu amigo Apolo, fonte de vida

 

Fui-me vestindo, ao mesmo tempo que fazia exercícios de aquecimento e arranjava forma de ir ganhando ânimo para as restantes tarefas matinais, fazer a barba, tomar duche, tomar o pequeno almoço, calçar-me e imaginar o que fazer para continuar o meu dia o mais operacional possível e contrariar as investidas da minha coluna.

 

Fazia falta pão para o almoço e eu achei ideal ir buscar o pão, o mais longe possível dentro das minhas possibilidades que, no momento, não estavam a ser grande coisa, para poder dar algum alento aos discos lombares que, em certos momentos, precisam de afago.

 

Disse que ia buscar o pão, mas que ia a pé, e não sabia quando vinha, pois ia aproveitar para dar uma caminhada, tanto quanto pudesse. Aproveitei para caminhar, ir ao banco e trazer o pão do Borel. Sentei-me para beber um café, numa mesa junto à janela, de onde posso fazer a cobertura visual do IC 19, direito à serra de Sintra e aproveito para dar uma olhada para a serra e o Palácio da Pena, lá longe, bem alcandorado sobre a serra, numa posição majestática, mais parecendo um ninho de águia, sempre aprumado e altivo, pronto para abraçar todo o mundo e arredores.

 

Pois como devem imaginar, da serra de Sintra, apesar da sua pequena altura, consegue-se abarcar o Mundo! E se eu abarco com a minha vista, desde o Borel, aquele belo castelo e o castelo abarca o Mundo, eu Ventor, através dele, também abarco o Mundo.

 

Bebi o meu café e peguei no pão, regressando a casa e, mais uma vez, não utilizei o caminho mais curto, mas segui pelo mais longo. Subi em direcção do Casal de S. Brás e, depois, desci por um novo jardim que vai ser grande, segundo o Presidente da Câmara me disse, pois irá abarcar toda a zona da Falagueira ocupada pelas barracas junto à ribeira do mesmo nome.

 

 

Águas correntes límpidas, e pacíficas, com belos penudos, aguardamos nos nossos ambientes

 

Ao descer o jardim, perante uma réstia de calor matinal, já junto ao meio dia, apercebi-me que nesta altura do ano, ainda haviam lindas borboletas! Fiz um desvio e, aproximei-me do "caneiro" da Falagueira, é assim que eu chamo à ribeira, e decidi espreitar o local onde as borboletas foram pousar, depois de virem sempre a dar à asa à minha frente, até junto dos arbustos e do canavial ali existente.

 

Espreitei e verifiquei que junto a umas canas, o local era escuro. Aproximei-me mais e, imaginem, descobri uma rocha que muita gente terá deixado de ver devido às "machambas" ali existentes e ao matagal junto à água corrente, mas conspurcada pela poluição como todas as águas correntes, hoje em dia.

 

Voltei a ver as borboletas, lindas como sempre, e ao tentar regressar ao caminho, ouvi um, pzz , pzz, pzz, e achei que era um passarinho que estava ali, se calhar como eu, mas com outro fito na observação das borboletas. O pzz, pzz, voltou-se a repetir, e eu voltei a olhar. Qual o meu espanto, quando uma voz magnífica se levanta do meio da rocha e me chama: "Ventor, Ventor"! Eu começo a olhar e não vejo mais nada que a rocha negra! A voz repete: "Ventor, que vês"? Vejo uma rocha - disse eu - uma rocha negra!

 

 

Uma rocha de basalto, tirada da Wikipédia

 

 "Pois" - diz a rocha - "é assim que toda a gente me vê. Não passo de uma rocha! Mas eu sou mais que isso, Ventor. Lá que as outras pessoas não me vejam, eu ainda aceito, mas tu Ventor!? Tu não consegues olhar para a rocha e ver-me"?

 

Bem, eu estou reduzido a um simples observador dos homens, mas tu, estás para além de uma simples criatura humana. Por isso me tens passado despercebida, mas já agora, identifica-te e diz-me que fazes aí, como uma mera rocha negra?

Como calculas não tenho assim tanto poder que possa aperceber-me de todos os sons que ouvi através dos milénios!

E assim falou para mim aquela rocha negra: "Eu sou a desterrada de Vulcano, Ventor! Antes das Tâgides, a quem Camões pediu inspiração, e ainda muitos outros antes do Camões, era eu quem inspirava os poetas que antecederam todos aqueles de quem as gentes, através dos milénios, têm ouvido falar. Eu, Ventor, sou uma Tâgide dos princípios do Mundo, ainda do tempo em que o Tejo era embalado pelas ninfas das fontes como uma corguinha onde se acumulavam as escorrências das águas das nascentes e das chuvas".

 

"Eu percorri todos os caminhos dos arautos da poesia, que através dos tempos têm cantado canções já esquecidas dos homens e do tempo. Vulcano furioso com a minha condescendência para com os primeiros habitantes desta linda terra que posteriormente veio a ser a tua Lusitânia, lançou-me um anátema e transformou-me nesta rocha negra, que tu vês! Por aqui tenho estado há milénios, desde o tempo que Vulcano revolveu toda esta terra e me transformou num amontoado de lava consistente e dura para toda a eternidade".

 

"Essas borboletas que tu tens vindo a apreciar, são as minhas companheiras de infortúnio. Foram elas que te foram buscar aí a cima, e te trouxeram até mim, pois eu sempre que te vejo passar, apetece-me falar-te, mas tu segues sempre apressado e determinado na persecução dos teus objectivos e nunca me atrevi a implorar-te o teu reconhecimento da minha desventura.

Hoje estás mais calmo, sem pressas e pronto a ouvir todos os desgostosos dos seus infortúnios e achei que estava na hora de alguém ficar a saber da minha existência aqui, em forma de rocha, a que muitos, já se atreveram a confundir com uma moura encantada".

 

 

macho-machon - A beleza animal e vegetal dependerá da nossa preocupação com o futuro

 

"As mouras de que falam são as ninfas que me guardam e que se transformam em borboletas e vão tentando inspirar as pessoas a terem forças, senão para cantarem as suas novas canções, pelo menos a continuarem a suportar, no seu infortúnio, o peso das injustiças".

"Mas olha Ventor, eu já fui feliz aqui, em forma de pedra negra, quando esta ribeira era percorrida por águas límpidas, e as suas encostas eram floridas. Esta já foi uma terra ilídica, cheia de flores e muitos outros encantos da Natureza. Ainda há bem pouco tempo, alguns anos apenas, eu servia de lavadouro às mulheres da terra. Eu via por estas margens as crianças brincarem atrás das minhas borboletas, a apanharem flores e, deliciando-se a ouvir o cântico dos grilos e dos ralos.

 

 

Grilos - Uma beleza entre as ervas ... nos poulos das minhas Montanhas Lindas

 

"Viam saltar os gafanhotos e o esvoaçar das libelinhas azuis e verdes e banhavam-se nas águas límpidas que escorriam encostas abaixo, por entre salgueiros, abençoadas por S. Brás. Agora, só vejo à minha volta, a conspurcação total, que desce desde a serra da Mira, e se vai infiltrar naquele rio Tejo que eu já fiz o mais lindo de todos. O Tejo já foi invejado pelo Reno, pelo Sena, pelo Danúbio, pelo Tamisa" ...

 

"Todos os grandes rios da Europa já invejaram o Tejo, pela sua beleza bucólica, pelas suas águas puras, pelas suas Tâgides. O Reno teve o seu Anel de Nibelungo, o Danúbio teve o seu azul, as suas balsas e os seus cisnes, mas o Tejo teve na sua embocadura as partidas de grandes esperanças e as chegadas de fragatas cheias de mundos. Luta por isso tudo Ventor! Luta para que esta ribeira volte a ter vida limpa, para que a minha aparência, embora negra, volte a ser airosa e bela. Tão bela que as borboletas possam esvoaçar sob os raios de sol límpidos, onde Apolo possa continuar a passear o seu belo manto dourado espraiado sobre veludo azul, cosido com linhas de platina, e continue a fazer brilhar seus raios sobre estas águas".

 

Despedi-me da desterrada de Vulcano que ficou mergulhada no seu profundo lamento e parti para o almoço. Para trás ficaram também as borboletas num puro bailado aéreo exibindo as suas vestes multiformes e multicolores para que eu as recordasse como continuam belas na companhia da sua ama.

 

 

 

É de um bom ambiente que depende o nosso mundo e das flores, a sua beleza. Por aqui já houve carrasca e ainda as há da parte de trás viradas para Belas 

Eu quero ser eterno companheiro do Ventor na nossa Grande Caminhada

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