Alguém disse que as andorinhas já andam aí?

Um dia, não muito longe, se calhar, mas eu espero que não, diremos: "as andorinhas não voltaram"!

Pessimismo? Não! Uma realidade evidente e quase certa! Mas as andorinhas são, para mim, animais muito especiais! Um dos maiores prazeres que eu levarei desta vida é o meu diálogo travado com as andorinhas por terras do Alentejo. Já salvei a vida a uma pequenina que caiu do ninho à minha frente. Coloquei-a, sob minha protecção, numa esquina de um quintal e, ali, a defendi uma tarde dos gatos das vizinhanças e não tardou muito, andavam os pais a dar-lhe de comer, ali, mesmo à minha frente!

 

 

As andorinhas também vão à missa, em S. Bento da Porta Aberta

 

Tão contentes estavam, que não faziam um único voo sem passar por cima da minha cabeça, como sinal de reconhecimento. Antes da noite chegar, aproveitei o afastamento dos pais, peguei num escadote, calcei umas luvas de borracha lisa, peguei na pequenina e coloquei-a no ninho! Quando os pais chegaram foram direitos á que deveria estar no chão. Atrapalhados por não a verem, subiram ao ninho para dar de comer à outra. Ao verem as duas, o chilreio foi de tal ordem que nem dava para acreditar.

 

Saíram em mais uma passagem baixa sobre a minha cabeça e não tardaram em regressar para darem mais comer às duas! Ali ficava eu, com o Martini na mão a dialogar com as andorinhas, à minha direita, a olhar a água espelhada do Mira lá em baixo e a ver, do lado de lá do rio, as cabras da Tieta do Agreste (era assim que eu lhe chamava em honra da telenovela brasileira que andava por aí)!

 

Andavam lá, todos os dias, umas cabras junto ao rio e eram o meu entretimento e do pai do Tomás, vê-las ao cair da noite, juntarem-se a umas rochas onde iriam pernoitar! Ainda a tempo, também antes do cair da noite, eu e o pai do Tomás e o primo, descíamos ao rio para ouvir a sinfonia da nossa passarada e o recolher de todos. As felosas cantavam a alegria da Primavera, mesmo quando tramadas pelos cucos que lhes roubavam o ovo para colocar o seu!

 

Quando subíamos, já as nossas andorinhas estavam deitadas e só na manhã seguinte, voltávamos a ter a sua companhia! E para além delas, à medida que o robe que Apolo usava se estendia sobre as costas do Mira, afinando o cântico à passarada, aparecia o nosso amigo cuco a desafiar o vosso amigo Ventor para mais uma desgarrada! A chegada das andorinhas são a primeira expressão da Primavera que se aproxima!

 

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Elvas, bombas de gasolina

 

 "Vês, Ventor" ... disse-me uma andorinha quando no verão passado eu ia a caminho de Cáceres ou Granada, já não tenho a certeza! Uma das vezes metemos gasolina nessa bomba  ... "o calor é tanto, que já nem água temos para construir as nossas "palhotas"! Aproveitamos os resíduos de água, óleo e gasolina para misturarmos com um pouco de terra e palha seca, para fazermos as nossas tijoleiras!

 

O nosso bico quase rebenta de tanto sacrifício que fazemos para tentarmos criar e conseguirmos levar os nossos rebentos de volta que, provavelmente, nos substituirão no próximo Verão na eventualidade de um azar! Já não sei se teremos força para levá-los connosco e menos ainda se conseguiremos voltar com eles"!

Elas tinham razão! Este mundo está a ficar cada vez pior, também para as andorinhas.

Eu sou um guarda-rios comum (alcedo atthis) e azul, tal como o Ventor gosta. Caminharei por aqui, neste Planeta Azul e, na companhia do Ventor, se nos deixarem

publicado por Ventor às 15:12